E então a professora pediu para que fizéssemos um texto contando sobre algo que estivéssemos sentindo ou querendo no momento. E eu, realmente eu, sonhadora, dramática, e romântica, apelei pelos cantos que mais conhecia, ou que achava conhecer.
Escrevi sobre minha vida. Sobre as coisas que queria para minha vida.
Tais coisas como um conforto especial que se chamava filho.
Ela ao ler minha redação se espantou com a minha ideia fixa de ter um filho, pois eu estava terminando o colegial e não tinha me formado, não tinha pilares o suficiente para uma independência financeira, quem dirá para ter um filho. Não que eu eu quisesse ter um, assim de imediato. Mas na hora foi o que me veio em mente. Não lembro ao certo sobre o que estava pensando, até achei de mim estranho escrever sobre um filho. Mas foi o que deu na hora. Um filho seria algo complexo demais, que dependeria de tantas outras coisas que eu não tinha no momento. Como um parceiro.
Não tinha namorado, nem pensava em ter. Não me sobrava tempo para administrar um namoro. E sim, digo administrar, porque para ter um namorado você precisa de tempo, de dedicação. Você precisa se entregar totalmente a isso. Minha redação ficou baseada em fatos de um futuro próximo que gostaria de ter. Antes que para ter um filho, precisaria de um namorado. E a boba logo foi citando características de como deveria ser o pai de seus filhos.
A professora se indignou com tamanha capacidade e sensatez. Pois eu sabia que não bastava amar uma pessoa para construir com ela uma família. Eu precisaria muito mais do que só amar.
Eu estava entrando para a faculdade, era meu último ano no colegial. Ainda não sabia muito bem qual curso escolheria, mas sabia que seria algum que me trouxesse independência financeira, prazer, e muita felicidade. Não queria depender de meus pais para sempre. Queria o meu canto. Queria, e quero. As coisas eram superficiais demais no momento. Era tudo muito novo para mim. E pensar em construir uma família não estava nos meus planos, mas lá no fundo, em algum lugar da minha mente, isso estava presente e fixo.
Sabia que além de estudo, e namorado, eu precisava ter a minha casa, e o meu conforto, para poder então dar o conforto necessário para a minha cria. Sabia de muitas coisas e estava ciente de que ser mãe não seria uma tarefa fácil. Por isso tamanha preocupação. Preocupação minha, e de minha professora, que ao ler minha redação me redescobriu.
Eu sempre muito quieta, calada, me escondendo. Ela sempre me apoiando, me empurrando pra sociedade. Mas o que ela não sabia era que nos fundos do meu silêncio, batia uma vontade muito grande de sair gritando e mostrando que eu não sou uma qualquer e que eu me preocupo sim com o meu futuro.
E ao voltar ao ponto filho, é, ainda bem que eu tenho bom senso, não é mesmo professora? Muitas estão agora fazendo filhos. E eu? Eu estou aqui, escrevendo coisas que saíram do meu inconsciente. E que saíram não sei de onde, mas saíram.
Eu parindo palavras, eu dando a luz a metas. Eu, escrevendo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário